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domingo, 24 de janeiro de 2016

O drama dos pacientes quem esperam por transplante na Paraíba

Aos 16 anos, José Roberto da Silva dividia seu tempo entre o trabalho na agricultura familiar e a escola. Há três anos na espera por um transplante de fígado, o jovem, hoje com 19 anos, passa o dia dentro de casa, no município de São José dos Ramos, na região da Mata paraibana, distante 91 quilômetros de João Pessoa. Ele está impossibilitado de realizar atividades que até pouco tempo lhe pareciam simples, como caminhar, dormir e se alimentar. Sem condições financeiras para entrar na fila de espera de transplante em outros Estados, ele aguardava a reabertura da fila na Paraíba, que até semana passada estava paralisada, obrigando paraibanos a buscar o procedimento em São Paulo, Pernambuco e Ceará.

O jovem conta que, desde que descobriu a necessidade do transplante, perdeu a esperança de realizá-lo, já que, sem condições de trabalhar, não teria como financiar a viagem para outro Estado. “O médico tentou me operar, mas eu tive muito sangramento. Ele disse que a única opção era o transplante e que eu tinha que fazer em Recife, porque em João Pessoa não fazia. Minha família não tem condições de pagar por isso, só pude esperar”, disse.

Em 2004 a Paraíba começou a realizar o transplante de fígado, mas desde então o número de procedimentos é instável. Registros da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (Abto) apontam que em 2014 o Estado realizou apenas um transplante de fígado, mesmo volume de 2012. Em 2013 não houve procedimento e em 2015 os pacientes passaram a ser enviados a outras Estados. O maior número de cirurgias foi realizado em 2010, quando foram feitos 11 transplantes.

Para José Roberto, que por enquanto é o único paraibano na lista de espera, o transplante é sinônimo de retomada da vida. “Eu não trabalho mais, vivo de doação. Eu só consigo comprar meus remédios, ir fazer as consultas em João Pessoa, me manter, porque tem gente que me ajuda, porque desde que começou meus problemas eu não consigo mais trabalhar, nem dormir eu durmo direito de tanto desconforto”, relatou.

O fígado é o segundo órgão mais transplantado (1.326 em 2015) no país, perdendo apenas para rim (4.158). Não há estatística do volume da espera pelo transplante por Estado ou região, mas especialistas garantem que pelo número de habitantes que possui a Paraíba, o procedimento jamais poderia deixar de ser ofertado. “A necessidade é de 20 transplantes por milhão da população. Pelo número de habitantes da Paraíba (3,9 milhões), não tem razão para não realizarem o transplante, já que ele mostra que há demanda”, disse o médico Lúcio Pacheco, consultor da Abto.

PB ainda não garante transplante de fígado

O anúncio da Secretaria de Estado da Saúde (SES) da oferta de transplante de fígado na Paraíba ainda é polêmico. Diante da instabilidade da cirurgia no Estado, a presidente da Associação Paraibana dos Portadores de Hepatopatias, Transplantados Hepáticos e Familiares (Apheto), Daniele Paiva, recebe a notícia com certa desconfiança. “Esperamos que voltem mesmo a realizar a cirurgia, mas os números da Abto (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos) falam por si. Tem muito tempo que eles não disponibilizam o procedimento da forma necessária”, apontou.

A presidente da Abto disse também que não há qualquer explicação do Estado sobre a paralisação das cirurgias ou o baixo volume de procedimentos. “O que está acontecendo há muito tempo é muito grave e eles não nos deram nenhum posicionamento. Fizemos audiências cobrando a volta da cirurgia, mas não deu em nada. Lutamos para o HU (Hospital Universitário) realizar a cirurgia, mas não tinham infraestrutura adequada, então o transplante era feito em um hospital particular, com recursos do SUS. O que nos sinalizaram é que deixou de ser economicamente interessante para o hospital particular”.
Somente em São Paulo, local mais distante a realizar o procedimento, há quatro paraibanos cadastrados na lista de espera do transplante de fígado, segundo informações da Secretaria de Estado da Saúde. Entretanto, a assessoria de imprensa da pasta estima que esse número seja bem maior, tendo em vista que, por medo de não ter acesso ao transplante, muitos paraibanos omitem o local de origem, por achar que não terão prioridade caso respondam a verdade. Até hoje foram 12 paraibanos transplantados em São Paulo. As secretarias de Saúde de Pernambuco e Ceará não possuíam os dados consolidados sobre os atendimentos.

A presidente da Apheto destaca que os que não conseguem realizar o procedimento no seu local de origem enfrentam uma série de problemas que não deveriam acometer quem está em condições delicadas de saúde. “Se você não tem como se mudar e se manter no Estado, você precisa se inscrever numa lista de espera próxima, como a de Pernambuco, que costuma ser grande. Mas ainda assim, se você é chamado, tem que ter boa condição de saúde”, disse Daniele Paiva.

JP
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