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​A cadeira vazia e o cálculo eleitoral: o que Lula e Flávio dizem ao faltar ao debate


Por Lázaro Farias | Análise Política

Duas cadeiras vazias podem dizer mais sobre uma eleição do que duas horas de debate.

É exatamente isso que a política brasileira vai testemunhar neste domingo (23), no debate presidencial da Band. Pela primeira vez em um cenário dessa dimensão, os dois nomes que aparecem na dianteira da corrida eleitoral — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) — não devem estar no estúdio.

Debate eleitoral sempre foi um dos momentos mais importantes de uma campanha. É quando os candidatos deixam o ambiente controlado da propaganda, enfrentam adversários, respondem a críticas e precisam demonstrar capacidade de liderança sob pressão.

Mas a eleição de 2026 está mostrando que a lógica mudou.

O cálculo por trás da ausência

Para quem está na frente ou disputa a liderança, participar de um debate também significa correr riscos.

Lula sabe que, estando no estúdio, será o principal alvo dos adversários. Em um palco com candidatos de centro, centro-direita e direita, o presidente provavelmente concentraria boa parte dos ataques.

A estratégia, portanto, parece simples: se não há obrigação de entrar no confronto, por que oferecer aos adversários a oportunidade de transformar duas horas de televisão em munição eleitoral?

Do outro lado está Flávio Bolsonaro.

A decisão do senador segue uma lógica semelhante, mas com uma diferença importante. Sua participação foi condicionada à presença de Lula. Sem o presidente, Flávio também prefere ficar fora.

É uma estratégia de proteção.

Ao não comparecer, evita ser transformado na principal vidraça da noite por candidatos que disputam o mesmo eleitorado conservador e de direita.

É o velho cálculo político: quando o risco é maior que o benefício, o silêncio passa a ser uma estratégia.

O debate mudou

Há ainda uma segunda questão que não pode ser ignorada.

O debate de hoje não termina quando a televisão é desligada.

Ele continua nas redes sociais.

Cada resposta pode virar um vídeo de 30 segundos. Cada erro pode virar meme. Uma frase fora de contexto pode alcançar milhões de pessoas. E uma provocação bem calculada pode render mais engajamento do que uma proposta de governo explicada durante cinco minutos.

O debate virou também uma fábrica de cortes.

E isso mudou o comportamento dos candidatos.

Em vez de pensar apenas no eleitor que está assistindo à transmissão inteira, muitos entram no estúdio pensando na frase que poderá viralizar no Instagram, no TikTok, no YouTube ou no X.

É nesse ambiente que candidatos com forte presença digital, como Renan Santos, podem encontrar uma oportunidade ainda maior.

Com Lula e Flávio fora do palco, os demais candidatos ganham espaço para atacar, provocar e, principalmente, ocupar um espaço que normalmente estaria reservado aos dois principais protagonistas da disputa.

Quem perde?

A estratégia pode ser inteligente eleitoralmente. Mas existe uma perda evidente.

Perde o eleitor.

O debate continua sendo um dos poucos momentos em que o candidato precisa responder, sob pressão, a perguntas e críticas dos adversários.

Não existe roteiro perfeito.

Não existe edição.

Não existe assessor escolhendo a melhor frase.

Existe o candidato diante do eleitor.

Quando os dois principais nomes da disputa não estão presentes, o cidadão perde a oportunidade de observar como eles reagiriam ao confronto direto.

E isso é especialmente importante em uma eleição tão polarizada.

O silêncio também comunica

Lula e Flávio provavelmente voltarão a se encontrar em algum momento da campanha. E, muito provavelmente, o confronto direto ficará para os debates mais próximos do primeiro turno.

Até lá, cada um seguirá tentando preservar sua posição e evitar movimentos que possam alterar o equilíbrio da disputa.

É uma eleição em que cada ponto percentual vale muito.

Por isso, as ausências não devem ser interpretadas simplesmente como medo de enfrentar adversários. Elas também são decisões estratégicas de campanhas que sabem que, em uma eleição apertada, um erro pode custar muito mais do que uma ausência.

Mas há uma ironia nisso tudo.

A televisão preparou o palco.

Os candidatos chegaram.

As câmeras estarão ligadas.

Os adversários estarão prontos.

E justamente as duas cadeiras mais importantes estarão vazias.

No fim, talvez a maior notícia deste domingo não esteja apenas no que será dito diante das câmeras, mas justamente em quem decidiu não aparecer.

Porque, na política, até o silêncio tem cálculo.

E, em 2026, as cadeiras vazias já começaram a falar.


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