A Lei de Cotas ajuda a
quebrar o mito da democracia racial. Essa é a avaliação de Eugenia Portela
Siqueira, pesquisadora da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados). Para
a professora, a implementação da política afirmativa reconhece a existência do
preconceito racial na sociedade e a necessidade de fortalecer a identidade do
negro e do indígena.
Eugenia
estuda as relações étnico-raciais na educação. No seu doutorado, a professora
acompanhou 31 alunos cotistas do Prouni (programa federal de bolsas em
universidades privadas). Em seus depoimentos, os estudantes contavam casos de
discriminação racial e social sofridos dentro do ambiente acadêmico e do
mercado de trabalho.
"A presença do
negro e do indígena na universidade ainda causa impacto", garante a
professora que acredita que o desafio das universidades é o de reafirmar a
identidade étnica dos estudantes e aproveitar o momento de troca de
experiências para combater o preconceito na sociedade.
Confira
abaixo trechos da conversa que aconteceu durante o I FNAC (Fórum Nacional de
Alunos Cotistas), no Memorial da América Latina, em São Paulo.
De que maneira a Lei de Cotas ajuda a reduzir a desigualdade
racial do país?
[A
Lei de Cotas] Deu uma balançada no mito da democracia racial no Brasil. Isso é
inegável. Historicamente qual era o espaço do negro na sociedade? Era o da
doméstica, o do frentista. Se pegarmos os dados de emprego, a população negra
ainda é mal remunerada, tem menor rendimento e tudo mais. Mas já teve alguma
mudança. Tem que ter uma discussão para quebrarmos esse paradigma de democracia
racial. A presença do negro em espaços que historicamente foram reservados a
brancos incomoda.
A
universidade ainda é eurocêntrica. Quem é que começou a estudar neste país?
Quem é que foi para fora estudar? Os ricos, os brancos. A universidade ainda
tem esse modelo, a presença do negro e do indígena nesse espaço ainda causa
impacto.
Como se dá a inclusão dos
cotistas negros dentro das universidades, que não costumam ter professores
negros?
É
importante que os grupos de estudo e os núcleos afro-brasileiros afirmem a
identidade desses alunos. Muitas alunas na pedagogia se identificaram negras
depois que eu comecei a dar aula lá... A primeira orientanda que eu tive, eu
olhava os traços dela, eu via que ali tinha a presença negra. Ela tem a pele um
pouco mais clara que a minha, alisava o cabelo e clareava com luzes. Eu brinco
com ela que ela foi enegrecendo. O cabelo foi ficando encaracolado, e hoje ela
parece outra pessoa.
Historicamente
nosso cabelo foi negado, porque é cabelo ruim, 'cabelo de nego'. O nosso nariz
foi considerado feio, a bunda, feia. Esses estereótipos estão na mídia, com as
"belas adormecidas" da vida, os anjinhos da vida. A criança negra
cresce sendo negada, negada a cor, negado o cabelo. Como é que você vai afirmar
a identidade se você é negra e passa a vida toda brincando com boneca branca?
Tem anjinho na igreja, você não pode ser. É esse racismo cordial que existe na
sociedade brasileira que tornou tudo mais difícil.
Na
universidade não é diferente. Hoje ela abre espaço, mas tem professor contra
cota na universidade? Tem. Tem professor que discrimina aluno? Tem. Porque o
preconceito está impregnado nas pessoas. Tem pessoas que duvidam da sua
capacidade.
Quais os desafios que a Lei de
Cotas impõem às universidades?
Não
basta dar o acesso, a universidade não acolhe como deve acolher. O grande
desafio da universidade é fortalecer a identidade desses grupos, mostrar que
[cotas] não é um favor, é um momento em que o Brasil precisa rever o que
historicamente fez. É usar a riqueza dessa troca [entre grupos diversos] para
que haja respeito entre os grupos.
A
universidade ainda não consegue fazer isso. Não tem uma equipe para dizer [para
o cotista] que vaga é essa que ele está ocupando, qual é a política pública, de
fortalecer a identidade étnico-racial.
uol.com.br
A
presença desses alunos [negros e indígenas] na universidade, sua entrada no
mercado de trabalho, isso modifica as relações étnico-raciais na sociedade e,
consequentemente, a sociedade como um todo.